Esse é velhinho... porém ainda atual... bem de qq forma coloquei pra vc ler...
"E do silêncio, se ouve, rompendo a noite, lacerando a paz que reina às 6 horas da tarde, quando num sábado todos se reúnem placidamente para o ritual do sorvete. Da minha casa também escuto, todo o bairro escuta, correria, gente se escondendo, alguns gritam, uma desmaia. Sete tiros a queima roupa. Ninguém sabe porque, ninguém sabe de onde, mas todos reconhecem um corpo que pinga vermelho e suja o semblante dos que tomam sorvete, deixando-os rubros de medo e nojo.
Urubus seriam mais pacientes esperando o corpo perecer, mas o bicho homem, este alimenta-se por vezes do sofrimento alheio. Forma-se uma roda em volta do corpo, comentários, pilhérias.... “--Papai eu quero um sorvete...” “--Calma filhinha...” todos empurram, todos querem ver e arrancar um pedaço daquela história trágica para poder aumenta-la quando em casa chegarem... “- Papai o meu sorvete....” ( a menina impacienta-se ), o pai dando um meio sorriso “-É menos um malandro...” o sangue goteja... “-Papai onde está o meu sorvete ?”. E tudo vermelho se espalha, as pessoas se afastam. Violência deixa de ser artigo de jornal, reportagem de TV, está no cotidiano, numa esquina num bar, num cruzamento num show, numa sala de cinema, num ônibus, num trem... “-Papai!!!”...”Deve ter merecido” ... “-Coitadinho...” “-Tu viu, tu viu??” “-Não perdi, merda ...” barulho, confusão, sangue, muito sangue... Barulho de sirene, enfermeiros, médico. “-Se afastem por favor!” É uma algazarra, uma diversão, uma novidade na monotonia do bairro. Não dói, não machuca, não fere mais ver a dor alheia pois ela já é normal. É encontrada num abrir de janelas e ao dormir somos embalados por seu som. “-Papai meu sorvete” a menininha entende apenas que seu sorvete demora e a impaciência a consome.
O corpo ainda respira, não geme, não grita, a dor é demasiada para qualquer esforço. É levado, fecham as portas da ambulância que sai gritando para o mundo, nada menos que mais uma ocorrência. A diversão acaba, as pessoas se dispersam, os clientes entram e o sangue é mais um enfeite da bela sorveteria... “-Quer de quê querida?” “Morango pai...” Alguém do lado pensa.... morango... vermelho... “Que gosto teria sorvete de sangue...” todos riem.... riem... Mas para onde foram o respeito, a pena, a sensibilidade. A indiguinação e a vontade de mudar? Morreram algumas horas depois junto com o rapaz, que após uma cirurgia cuja higiene deixa muito a desejar, é abandonado numa maca nos corredores do um hospital público dando a chance para a infecção hospitalar que irá consumir até o seu último suspiro.
Mas a quem importa esta história, que história mais chata e sem graça... E aí leitor vai um sorvete ?"
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ResponderExcluirHá muito queria ler esse texto, obrigada por colocá-lo! (rsrs). Desde as minhas primeiras observações analíticas sobre vc, percebi a sua sensibilidade em relação a situações absurdas que todos (de forma geral) se deparam e muitos nem mesmo se incomodam. Um cotidiano permeado de injustiças sociais e banalidade da violência que te incomoda e até te faz perder noites de sono. Esse texto como vc me falou, escrito em um impulso, em um suspiro, foi a forma que vc encontrou expressar a angústia e a revoltar por aquela cena mórbida. Pode-se até dizer “fria e prazerosa”, como um sorvete para aquelas pessoas. Saiba que gostei muito do texto por ele expor o seu íntimo gritando como uma voz solitária contra algumas atitudes humanas que, muito além de uma simples reação de normalidade diante de um corpo agonizando, reflete todo um contexto social.
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