Desvanece aos poucos, mas ainda lembro o espectro do que ficou tatuado....
É noite, estávamos saindo do trabalho, conversando, percebi seus olhares insinuantes. É verdade que sempre rolou um flerte, mas uma coisa indefinida que nunca ficou muito claro para mim, até aquela noite achava que era coisa da minha cabeça...
Saímos do trabalho conversando, caminhando para fora vários assuntos vem a baila, mas seu conteúdo pouco importa para mim, movo meus lábios em argumentos que pouco me importam, o que conta para mim é estar ali olhando para ela. Seu jeito de andar, a forma como move os cabelos, o desenho da boca, a forma como fala, o volume dos seios por baixo da roupa de executiva, aliás todo o seu volume, curvas, caminhos vastos num corpo que de longe e a muito namoro com os olhos.
Sinto por ela uma paixão que faz remexer tudo em meu corpo, mas ela não sabe, pelo menos achava eu.
Na saída tomamos juntos uma condução para uma confraternização, não me lembro se um taxi, não me lembro se carros de amigos, não me lembro o que conversávamos, apenas o desejo se fazia presente em meu peito que forte pulsava. Aliás eu não sei nem como estava conseguindo conversar tamanha a emoção daquela noite.
Da confraternização pouco lembro, não poderia produzir uma linha se quer de nada que se passou. Lembro apenas que bebi, aliás, bebemos. E já do lado de fora ela vem para o meu lado e roça em meu corpo e sussurra em meus ouvidos “quero fazer sexo hoje”.... Aquilo bate direto em meu coração que agora não mais pulsa, mas martela tudo o que há em mim ao ponto das pernas não mais obedecerem, ao ponto de perder a firmeza quando ela se curva e me beija. É como fogo que ao encostar em mim escorrega para dentro do meu corpo inflamando tudo o que eu sou. Estou apaixonado. Doentemente apaixonado e só agora me dou conta. Seu beijo leva um tempo infindo. Não me lembro de tê-la abraçado, lembro da sensação violenta de voar, de sair de mim e ser ela e ser eu, e me perder no fogo que fazia a chama arder com uma intensidade que em minha vida inteira não tinha sentido.
E mais uma vez após separar-se de minha boca, roçando seu corpo voluptuoso e convidativo no meu convida “quero fazer sexo... agora”. Como podem palavras serem precursores de orgasmos, mas me lembrando agora era mais ou menos isso que eu conseguia pensar.
Ela diz “tem um motel aqui ao lado”, e me puxa pela mão e me leva, eu não ando eu flutuo e não acredito que em pouco tempo aquele corpo vai estar ao alcance das minhas mãos, da minha boca, me regalo no ante-gozo do prazer ao simples pensamento enquanto ela me puxa.
Ao saímos para rua, ela está deserta. Andamos a passos rápidos. Ao lado ela vê um prédio se dirige para ele. Não é um motel. Ao andarmos passamos por alguns meninos de rua. Chegando mais próximos ao prédio, vemos que não são meninos, mas rapazes, eles nos importunam, pedem, dizemos que não temos nada, eles nos seguem. Entramos no prédio pelas escadas da frente. Não há porteiros, não há ninguém na madrugada, não há ninguém lá embaixo, está tudo fechado. Os rapazes nos seguem. Rápido tento forçar a porta antes que cheguem. Não consigo. Minha colega se desespera ao ver que eles possuem facas e sorriem para ela. A intencionalidade deles está no ar. Era a mesma que a minha, mas sem o consentimento da minha colega.
Eles vão para o lado dela, nesse momento forço mais a porta e consigo entrar no prédio, ela me segue, eles nos seguem. Corremos... subimos... ninguém para nos ajudar, o pânico começa e me tomar apenas por imaginar o que poderiam fazer com ela.
Na correria desabalada entramos em um dos apartamentos e lá reside um senhor. Eles entram, quebram ameaçam perturbam, puxam a faca, um deles pelo menos. Minha colega chora e se esconde somos todos desespero.
Olho para a faca erguida que vem em minha direção e olho para o rapaz que empunha, sinto nele medo, também o sinto, mas ainda o sinto mas nele. Ele é franzino. Lutamos, corpo a corpo, tomo-lhe a faca, corto-o com sua própria arma, ele grita, os outros fogem.
Sinto alívio...
Olho para minha colega, levo-a para a varanda e embalo seu choro, limpo suas lágrimas e digo que nunca deixaria que nada lhe acontecesse....
Mas...
Mas este estado de paz dura pouco, porque um pouco depois surge na porta... ele... o irmão daquele que eu tinha esfaqueado e que se esvai em sangue na cozinha.
Ele é a maldade em pessoa, ele exala ruindade, ela extravasa seus olhos e me fura, e me corta, tenho pânico só de olhar para ele. Careca, olhos fundos vestido de regata preta, empunha uma faca e decididamente entra lentamente no apartamento para vingar os seu irmão.
A minha única reação nesse momento e abandonar minha colega na varanda e andar de costa para a cozinha com um medo que nunca senti em toda a minha vida. Ele vai entrando cada vez mais e eu recuando até que ele cruza comigo e se dirige ao dono da casa. Neste momento eu estou do lado de fora do apartamento segurando a maçaneta da porta da área de serviço enquanto escuto o que julgo ser o dono gritando de pânico “NÂÂÂÂÂÂÂÂOOOOO!!!!!!”. É um barulho ensurdecedor. Neste momento sei que ele está sendo brutalemente esfaqueado. Meu medo cresce e faz com que eu feche cada vez mais aporta da área de serviço, comigo lá fora.
Me isolo lá fora com medo que ele venha se livrar de mim e sofrendo a culpa por não poder fazer nada quando quanto a minha colega, minha paixão, que isolei lá dentro junto com o monstro, mas que a falta de coragem me impede de resgatá-la. Sofro de medo e culpa e nesse momento minha força se concentra na minha mão em impedir que a porta se abra e ele me ache. Sou engolfado pela escuridão das escadas que estão atrás de mim imerso na minha dor que não pode ser gritada e sim obrigatoriamente suprimida.
Começo a suar e o mundo a minha volta esquenta... abro os olhos e tudo está negro... minha mão está firme, mas tudo está negro, estou suando muito, sinto minha respiração pela primeira vez naquela noite, meu coração disparando... e o negro começa a tomar a forma do meu quarto... demoro a perceber que tudo fora um sonho... passo uns dez minutos com os olhos arregalados sentindo a sensação de medo, de pânico, até que meu consciente assume e comando e diz que tudo não passou de uma fantasia.
Me levanto são 3:36 da madrugada, tomo água, ando, ligo a televisão, assisto o fim de um filme velho. Aos poucos volto ao meu estado normal. Depois de meia hora volto para cama e durmo novamente sem sonhos desta vez...
Ao acordar de manhã me dou conta de tudo o que se passou e percebo que meu consciente assume de vez o controle. Me dei conta do mal com que tive contato. Um mal demasiado humano e presente, que me fez abandonar o que para mim era um símbolo de desejo e paixão e assim me mostrar o quanto sou pequeno e fraco ante a uma sensação de medo que meu subconsciente compreende. E nos momentos em que meu consciente baixa muito a guarda, essa lembrança ganha corpo e encontra um caminho para se mostrar.
Não sei de fato, e agora é o meu lado consciente que está escrevendo, se fui muito exposto a maldades nesse nível ... talvez haja um bloqueio que me impeça de lembrar. Mas certamente o meu inconsciente sabe o que é isso, com toda a sua simbologia de significados.
Outros podem até dizer que meu sonho não passa de uma alegoria parabólica do mundo em que vivemos e no qual bebemos da violência...
Mas...
Acho que qualquer pessoa sabe que o sentimento de ser expectador de violência é um e ser vítima impotente é outra. E neste caso meu subconsciente teima em me dizer que eu conheço o segundo tipo, por mais que eu não faça essa ponte com o concreto ou o real consciente.
Enfim foi uma noite difícil, esse não foi o primeiro e certamente não será o último.
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altamente cinematográficos os teus pesadelos... tem alguns, inclusive, que me arrepio só de lembrar vc contando... e terminou q nem "pegou" a menina, rapaz! kkkkkkkk
ResponderExcluirCadÊ os textos novos?!
ResponderExcluirAff!
aushuashuashuashua