quarta-feira, 2 de junho de 2010

Fantasiado de mendigo

Se um dia alguém me pergunta-se qual a cena mais bizarra que já presenciei, eu responderia que foi algo simples, que provavelmente passaria despercebido a muitas pessoas, mas para mim foi bizarro.

Um dia, não lembro bem quando, também não lembro bem porque, estava eu numa manhã de carnaval a no calçadão de Boa Viagem esperando só alguém ou algum grupo de amigos que ia chegar, enfim não lembro o motivo. Mas lembro da sensação de estar cedo a olhar para a bela manhã de céu azul, cheiro de mar, os trabalhares colocando suas cadeiras, o dia desabrochando. O sol já presente, mas apenas mostrando seus belos traços e não ainda seu calor abrasador. Por traz de mim, belos prédios de apartamentos caros que todos os dias tem este belo cenário para despertar, suntuosas fachadas, carros importados estacionados na rua, pessoas caminhando nesta bela manhã de carnaval.

E então meu olho parou num entulho, um monte de lixo que estava embaixo do banco que separa a areia do calçadão. Certamente que este lixo destoava da beleza natural do lugar e da limpeza que estava o calçadão naquele dia. Mas bem deixei pra lá...

De uma das ruas saiu uma troça de carnaval e muitas pessoas que já estavam a todo gás muito cedo naquela manhã.

Eu não sou um folião de forma alguma, mas acho bonito ver passar as pessoas com aquela felicidade pelo fato de estarem ali na algazarra. Me aproximei da entrada da rua para melhor ver a troça.

Quando eu estava me aproximando é que notei que aquele entulho de lixo era nada menos que um senhor agarrado a um saco, provavelmente com suas posses, tão sujo quanto ele dormindo embaixo do banco. E minha visão ficou presa naquele senhor aparentemente com idade avançada, não se via seus cabelos, estava com uma espécie de gorro, dormindo, desligado do mundo. O belo mundo a sua volta e ele ali destoando de toda a cena dormindo.

Fiquei olhando para o senhor por muito tempo até que o mesmo acordou por causa do barulho da troça que passou ao seu lado, o rosto desorientado, e logo para meu espanto ele começou mesmo sentado a se sacudir no ritmo...

Ficou de pé e começou a se mexer de acordo com as batidas da música e seguiu acompanhando a troça, esquecido da sua sujeira, esquecido da fome, esquecido do sono, naquele momento ele era mais um folião, naquele momento estava fantasiado de mendigo, e o grupo acolheu seu novo integrante, e seguiram cantando e dançando sem se dar conta da loucura que estavam imersos todos.

Eles foram e em mim ficou a lembrança e os olhos marejados por aquele senhor que mesmo ciente de sua situação naquele momento se deixou levar e brincou, e foi mais um e fez parte, e se tornou parte de uma sociedade que o coloca a margem. Brincando ele se colocou em sociedade mesmo que por alguns minutos, mesmo que por alguns momentos, penso seu, sua dor ficou ali comigo e com ele só havia alegria...


Uma alegria que nunca compreendi...

E acho que jamais compreenderei...

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